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Quando
dizemos que não há meios de escapar da solidão, não queremos dizer que isso é
difícil, mas que é completamente impossível. O que as demais pessoas conhecem a
nosso respeito são apenas nossas bocas movendo-se diante delas, e as ideias que
constroem a partir disso; em suas mentes, isso resulta numa visão de nós mesmos
tão deturpada quanto a visão que temos delas, que nos parecem existir apenas do
lado de fora; e não nos enganemos, nós passamos essa mesma impressão. Contudo,
assim como elas, nós existimos primariamente num nível privado que é
inacessível, significando que todo e qualquer contato sempre acontecerá de
forma indireta. Isso nos permite compreender que não há situação em que seria
possível escapar da solidão. Apenas podemos supor que um contato direto seria
agradável, mas isso é algo que imaginamos pelos verbos que vemos sair de outras
bocas, que se assemelham ao que nós próprios murmuraríamos. Talvez fosse
agradável ter um contato direto com a consciência de outra pessoa — e não
apenas com seu vocabulário —, mas isso é impossível. Em relação ao íntimo uns
dos outros, somos todos estrangeiros vivendo seu exílio pessoal. Cada qual está
trancado em si próprio, e só conhecemos o que os demais dizem de si, nunca eles
próprios; e nós também nunca seremos conhecidos, apenas ouvidos sobre aquilo
que dizemos de nós mesmos. Em suma, a solidão é a consciência de que vivemos
sozinhos em nossos corpos, e só podemos entrar em contato com outros indivíduos
por meio de gesticulações que nossos corpos executam — exatamente como se cada
qual morasse sozinho em uma casa, e só pudesse entrar em contato com outros
indivíduos por meio de cartas, sem jamais conhecer o interior de outras
residências.
André Díspore Cacian
Quando
dizemos que não há meios de escapar da solidão, não queremos dizer que isso é
difícil, mas que é completamente impossível. O que as demais pessoas conhecem a
nosso respeito são apenas nossas bocas movendo-se diante delas, e as ideias que
constroem a partir disso; em suas mentes, isso resulta numa visão de nós mesmos
tão deturpada quanto a visão que temos delas, que nos parecem existir apenas do
lado de fora; e não nos enganemos, nós passamos essa mesma impressão. Contudo,
assim como elas, nós existimos primariamente num nível privado que é
inacessível, significando que todo e qualquer contato sempre acontecerá de
forma indireta. Isso nos permite compreender que não há situação em que seria
possível escapar da solidão. Apenas podemos supor que um contato direto seria
agradável, mas isso é algo que imaginamos pelos verbos que vemos sair de outras
bocas, que se assemelham ao que nós próprios murmuraríamos. Talvez fosse
agradável ter um contato direto com a consciência de outra pessoa — e não
apenas com seu vocabulário —, mas isso é impossível. Em relação ao íntimo uns
dos outros, somos todos estrangeiros vivendo seu exílio pessoal. Cada qual está
trancado em si próprio, e só conhecemos o que os demais dizem de si, nunca eles
próprios; e nós também nunca seremos conhecidos, apenas ouvidos sobre aquilo
que dizemos de nós mesmos. Em suma, a solidão é a consciência de que vivemos
sozinhos em nossos corpos, e só podemos entrar em contato com outros indivíduos
por meio de gesticulações que nossos corpos executam — exatamente como se cada
qual morasse sozinho em uma casa, e só pudesse entrar em contato com outros
indivíduos por meio de cartas, sem jamais conhecer o interior de outras
residências.
André Díspore Cacian


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